Entrevista Patrick Tor4 – “É necessário entender as várias dimensões da atividade cultural”

Foto: Instagram pessoal @patricktor4

Ter nascido no dia 1º de outubro, Dia da Música, pode ser apenas uma feliz coincidência para Patrick Tor4. No entanto, quando acompanhamos sua trajetória, não teria dia mais adequado para ele ter nascido. “Não lembro de nada sem música que tenha importância em minha vida”, afirma. E não dá pra duvidar. São 20 anos como radialista, 23 como DJ. Tocou caixa e surdo na banda Naurêa. Já visitou mais de 10 países com seu Baile Tropical.

Atualmente é gerente de programação da Rádio Frei Caneca FM, Emissora pública do Recife e já coordenou as emissoras Públicas Cultura FM do Pará e Aperipê FM de Sergipe. Por onde passa, Patrick leva música e um olhar bastante apurado sobre cultura e política. “Não podemos pensar a cultura apenas como uma atividade estanque”, diz. “É necessário entender as várias dimensões da atividade cultural. Porque não só de política pública vive a cultura”, finaliza. E para saber um pouco mais da sua trajetória como DJ, as festas via Zoom na quarentena, e os desafios da cultura e da radiodifusão, é que trocamos uma ideia com Patrick Tor4 e você confere na entrevista abaixo.

Como nasceu sua relação com a música?

Acho que é mais antiga que minha capacidade de entender, não lembro de nada sem música que tenha importância em minha vida. Ela é o ínicio de tudo.

O Baile Tropical já passou por quase todo Brasil e já foi realizado em mais de 10 países. Mesmo sendo uma festa com pegada “world music “, quais as principais diferenças que você sente do público nessas andanças?

Acho que as gerações, as presenças de mulheres, gays e pretxs interferem muito no fluxo da festa. Quanto mais essa mistura de gente é garantida, mais liberdade de conteúdos dos djs se amplia e a festa flui melhor. Quanto menos tem essa diversidade, mais o repertório é restrito, mais cai o respeito ao trabalho dos artistas, menos interessante fica o set.


Uma coisa muito comum hoje é dizer que “todo mundo é DJ”. Você acha que é isso é mesmo ou existe uma desvalorização da profissão?

Acho que todo mundo é DJ é sim. E isso não tem a ver com a valorização do profissional porque isso independe de você democratizar o acesso aos meios de difusão de ideias, mensagens e sentimentos. Tanto a cultura hip hop, quanto a cultura soundsystem, que são duas bases fundamentais para os djs, foram construídas em cima da ideia de democratização do acesso. A técnica e o respeito profissional são outros desafios, criar mais falantes e multiplicadores disso é fundamental na lógica decolonial.


O DJ é visto por muitos como um educador musical, o cara que apresenta sons novos, resgata antigos. Porém existe uma reclamação entre os profissionais de que o público, principalmente o mais jovem está menos aberto e prefere ouvir apenas hits. Você sente isso nas suas apresentações?

Entendo que tem uma fatia de público que enxerga no Dj essa coisa do “educador musical “ isso é apenas uma das funções, mas tem um imenso recorte elitista neste olhar, tanto de quem atribui este olhar quanto de quem precisa deste tipo de legitimação para respeitar. É raso e preconceituoso na minha opinião, é o mesmo olhar que trata o funk ou o pagode como música menor, reforçando discursos racistas e eurocentrismo. Em ambientes onde o mercado flui de uma forma mais dinâmica, nem precisamos falar de Europa e países de primeiro mundo, Jericoacoara, Praia do Forte e qualquer lugar mais turístico com maior fluxo de grana, esse debate cai por terra, porque todes estão ocupados tocando e vivendo sua vida, acho esta uma discussão de quem não tem problemas reais pra resolver, quem paga contas, sustenta família e tem outras lutas para se preocupar não tem tempo para este debate.


Qual é a maior dificuldade de um DJ, o domínio técnico ou do público?

Acho que o maior problema é se posicionar num mercado que não existe. No começo, como em várias outras áreas, eles acham que precisam provar que são foda tecnicamente. É a demonstração de força, muito parecido com o arquétipo do “guerreiro” da sociedade patriarcal que vivemos. Na verdade, a resposta está num pensamento mais coletivo, mas de trocas e generosidade, de crescimento de uma cena com links fraternais e de compromisso do que de ser rápido ou bom tecnicamente. Acho que repertório, sensibilidade, generosidade e compromisso com sua cena vem antes do domínio técnico, mesmo ele sendo fundamental, mas sem os outros ele não é nada.

Você já trabalhou em cidades como Aracaju, Belém, Recife, Caxias do Sul ou Vitoria do Espírito Santo. O que essas cidades têm em comum em termos de cena cultural? Foi difícil a adaptação?

Cidades como Caxias, Vitória e Aracaju sofrem uma influência muito grande de capitais que tem mais grana, maior circulação de pessoas e isso interfere muito no crescimento de suas cenas. Já Belém e Recife, por serem essas cidades maiores e por justamente concentrarem essa grana, esse fluxo de gente, faz com que as cenas cresçam de forma desproporcional com relação a lugares como Aracaju e Vitória por exemplo. Esse fator a gente não pode deixar de lado. Caxias do Sul por exemplo, é a segunda maior economia do Rio Grande Sul, tem muito estudante universitário, tem mercado consumidor grande, tem as pessoas que vão trabalhar nas fábricas. Só a cidade de Caxias tem a mesma quantidade de fábricas que todo estado de Sergipe! Isso interfere muito quando você vai desenvolver um trabalho, porque a vida noturna ganha outra dimensão de consumo, de fluxo. Você consegue trazer shows de artistas de fora, porque tem essa bilheteria presumida por você ter um fluxo de gente maior. Então tem um impacto muito grande. Aracaju precisa se compreender nesse espaço, não só para promoção de seus artistas locais, mas quem trabalha com noite precisa entender-se como entretenimento mesmo, fazer com que as pessoas saiam de casa. Mesmo que não seja para show de artistas locais, seja para show de artistas de fora, festas, isso é o que faz com que a cena aconteça, que a vida noturna aconteça. E ai você tá criando mercado, público, fortalecendo espaços e quando o artista local for se apresentar ele tenha esses elementos resolvidos. Público, espaço com condição e uma vida noturna ativa para propiciar o desenvolvimento do seu trabalho.

O atual governo vem aprofundando o processo de sucateamento da cultura no Brasil. Quais as alternativas para o setor se manter vivo e ter políticas públicas efetivas?

O sucateamento existe independente desse governo, por mais que a gente tenha tido um crescimento muito grande no período Lula-Dilma, o período de Dilma já não foi tão feliz como na gestão Gil-Juca no MinC e isso a gente tem que deixar muito claro. É uma luta constante, muitos estados pelo Brasil não conseguem entender, não tem Secretaria de Cultura, não conseguem entender o papel humano e fundamental da cultura. E isso vai deixando espaço para lutas que precisam acontecer. Numa situação como essa que a gente tá passando, que o governo vira as costas para a cultura é a gente se jogar no mercado, quem tem condição naturalmente disso e não deixar de lutar, não deixar de fazer as cobranças por políticas públicas efetivas, mas quem tem um tipo de profissão artística, cultural e que tem condições de fazer o enfrentamento com a bilheteria, deve se posicionar pra isso. Tem muitas marcas chegando junto, tem editais de marcas grandes como a Natura, que encerrou em setembro, botando dinheiro em projetos que são viáveis do ponto de vista econômico, que são viáveis em termos de acessibilidade. Não podemos pensar a cultura apenas como uma atividade estanque, que precisa ser mantida, que conecta a gente com uma tradição, uma oralidade, um passado. Ela é dinâmica, e ela sim pode ser um espaço para gente ganhar dinheiro e se sustentar com ela, e sendo colocada como entretenimento também. É necessário entender as várias dimensões da atividade cultural. Porque não só de política pública vive a cultura, é fundamental que a gente luta pela proteção dessas políticas, é necessário a gente enxergar possibilidades no mercado para que a gente possa viver de entretenimento com o tipo de atividade artística que a gente faz, é muito importante essa visão.


O que você tem ouvido nessa quarentena? Descobriram sons novos?

A quarentena tem sido muito cruel com todo mundo. E quando eu falo de crueldade é porque a gente tá precisando de colo, consolo, de afago. Isso é o que mantém a gente em equilíbrio mental, psicológico. E isso eu encontro mais em repertórios conhecidos. Então eu tenho revisitado discos clássicos, obras de artistas que julgo relevantes pra mim, que eu tenho interesse em escutar. Tenho usado a quarentena muito mais para esse reencontro com artistas importantes e fundamentais pra mim, porque traz esse conforto. Mas naturalmente a gente acaba sendo alvejado por novas sonoridades, novos trabalhos, muito bons que estão sendo lançados por aí, então acabei me conectando com coisas novas. Ultimamente tenho ouvido muito Os Gilsons, que é o encontro de filhos e netos do Gilberto Gil. Descobrindo também novas sonoridades de outros lugares, artistas que estão lançando trabalhos novos, gente que já conhecia lançando trabalhos novos como a Luana Carvalho, filha da Beth Carvalho, que tá com um disco bem legal. A Silvia Machete, do Rio de Janeiro, a Luedji tá com disco novo que tá pra sair eu já ouvi e tá bem legal. O foco é ouvir as coisas conhecidas, mas a gente acaba sendo conectado com coisas novas que vão surgindo e conquistam a gente.


Você tem feito diversas festas online/lives. Como foi pra você essa mudança no modo de fazer eventos e como o público tem reagido a esse novo formato?

Passei o primeiro mês de 15 de março a 15 de abril, pensando em tentar entender. Fiquei um pouco preocupado com o boom de lives, sobretudo coisas sem muita qualidade técnica e artística, naquele oba-oba que abriu o link do Instagram. Eu preferi aguardar. Tem uma coisa que me preocupa muito que é quem escuta, a pessoa que tá lá do outro lado. Fica muitas vezes a sensação de que a live é solução para quem quer falar, uma solução para o dj que quer discotecar, do que uma preocupação com quem tá recebendo. Eu tenho essa leitura. Tenho recebido convites para fazer performances lives, sempre tentando garantir o mínimo de qualidade, fiz algumas para Devassa diretamente, outras para festivais patrocinados pela Devassa. Foram algumas oportunidades muito legais. Em particular, eu tenho me dedicado mais em festas no Zoom para amigos e amigos de amigos. Muito mais preocupado com acolhimento, manter a galera com astral lá em cima, é cuidar das pessoas via música, do que necessariamente uma balada, uma farra. É um encontro semanal no meu zoom, onde convido amigos para tocar também, mas o foco é cuidarmos uns dos outros, umas das outras. Então tá sempre lá eu, trazendo um convidado ou uma convidada para que a gente tenha uma brincadeira, mas nessa perspectiva de cuidar das pessoas, ou seja, usar a festa online mais para manter o astral das pessoas do que necessariamente fazer uma farra ou para discotecar para pessoas e mostrar meu trabalho artístico. Acho que esse é o momento da gente se cuidar, meu trabalho artístico fica em segundo plano numa hora como essa. É um jeito interessante que eu tenho usado, vejo outras pessoas fazendo de outras maneiras, cada um encontra o seu jeito de se posicionar, não tem certo nem errado numa hora como essas. 


Como diretor de programação da Frei Caneca FM, quais os maiores desafios da radiodifusão hoje em meio a concorrência com novas tecnologias?

É comum que várias linguagens, várias áreas de atuação, o impacto de novas tecnologias mudem o jeito de se fazer. Vai tá em qualquer lugar, vai se reinventar. Taí os entregadores com relação aos restaurantes, principalmente nesse início de pandemia. Então é reinventar a partir da nova tecnologia, a gente tem que estar atento. O rádio não é o único afetado com isso, em todas as dimensões eu acho que investir no compromisso e na qualidade do conteúdo, no caso do repertório da rádio, do compromisso com o ouvinte, ouvir o que ele ou ela tá precisando, acho que isso faz o diferencial. É claro que a gente não tá numa emissora que exatamente briga por audiência, que tem que tá lá na ponta, a gente atua com compromisso com o cidadão e a cidadã, esse é o perfil da comunicação pública. O impacto existe, mas a maneira da gente contra atacar é muito preocupado com o conteúdo, tanto das entrevistas, quanto da seleção musical, se está atualizado não é o mais importante. A gente promove uma programação um pouco mais recheada de coisas conhecidas, preocupados com as pessoas se sentirem confortáveis. Essa preocupação é fundamental. Eu acho que investir em diálogo, compromisso, qualidade de conteúdo é o grande diferencial pra você enfrentar tecnologias diferentes e que possivelmente estão roubando seu público e naturalmente você incorporar linguagens e ferramentas dessas novas tecnologias para a plataforma que você atua, acho que esses são princípios fundamentais.

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