Entrevista com Táia – “Eu resolvi assumir a música como prioridade”

Entrevista com Taia
Foto: Instagram pessoal @taiamusica

No dicionário um dos significados para a palavra “renascer” é: crescer de novo, rebrotar. E foi rebrotando sua relação com a música que a cantora Táia ( que antes assinava como Taya) lançou no ano passado seu ep “Tormento”. Um nome perfeito para quem vinha de um processo difícil de fim de relacionamento e reconstrução pessoal. O trabalho é carregado de malemolência romântica e sofrência pop. Um belo cartão de visita. Depois de sair do casulo, Táia quer mostrar que veio para ficar, sem querer se rotular e nem ser rotulada. Agora ela prepara seu álbum de estreia “Renasço”, que está em fase de produção, após campanha de financiamento coletivo. Trocamos uma ideia com Táia para conhecer mais do seu trabalho, suas origens e inspirações.

Um ano após o lançamento de “Tormento”, o que mudou em você e na sua música nesse período?

Especificamente após o lançamento de “Tormento”, eu acho que o que mudou foi a maneira como eu enxergava a música dentro da minha vida. Isso mudou a forma de eu lidar com música num todo, nas composições e tudo mais. A partir do lançamento de “Tormento” eu resolvi assumir a música como prioridade, como plano principal, porque era uma coisa que eu não tinha assumido até então. Era uma coisa que eu não conseguia assumir para mim e consequentemente não assumia para os outros. No começo eu criei a Táia mais como uma persona para me dar coragem de cantar, sabe? Pra me afastar um pouco da pessoa que tava ali no palco, dessa entrega que eu tinha que oferecer e não sabia direito como ainda. Apesar de eu ter dançado durante muitos anos da minha vida, ter participado de apresentações de teatro e até de música, mas sempre atrás como percussionista ou backing vocal, assumir a frente do palco era muito desafiador. Eu sou muito tímida e insegura. Acho que o mudou mais nesse último ano foi a questão da segurança e da aceitação mesmo. De eu me entender enquanto artista e colocar isso sem tanto medo. Não que seja tão fácil, mas eu consigo fazer, com muita ansiedade, com preocupação de julgamento, porém entendendo que é a minha verdade. Entendendo que é o que eu sei fazer, eu dou o que tenho de melhor. Nem todo mundo vai gostar, mas eu consigo aceitar isso melhor hoje.

Você já disse que fazer música foi como um renascimento para você. Como surgiu sua relação com a música?

É muito difícil responder como surge essa relação, porque a música sempre esteve muito presente na minha vida. Na família, na escola. Eu fazia aula de música com Merry ( Barreto), e aí me interessei de fazer aula de violão com ela também quando era adolescente. Mas na verdade eu me encantava mais pelo teatro, eu sonhava em ser atriz. E aí eu levava a música como uma opção para ser atriz de musical, uma coisa assim que complementasse o teatro. No entanto a música sempre esteve muito mais presente a minha vida. Eu fiz aula de teatro também, mas a afinidade foi mais forte com a música. Só que a vida vai exigindo as coisas, muitas responsabilidades e eu não tinha segurança de me assumir artisticamente como profissional e tal. E acabei indo pra Arquitetura. Gostava muito de matemática e achei que podia juntar a historia de ganhar dinheiro com a história da arte. Então na minha cabeça iludida (risos) Arquitetura poderia me dar dinheiro. Ou uma estabilidade financeira para que pudesse levar a arte como segundo plano na vida. No final acabei abandonando a Arquitetura. Eu tive um relacionamento muito longo, da adolescência até a idade adulta, de quase 11 anos. Aí eu me separei aos 25 e aí comecei a viver da maneira que eu realmente gostava de viver, de sair, de saber o que tava acontecendo na cidade. E isso acabou me reaproximando da música. E por conta de um relacionamento mal sucedido eu voltei a escrever. E por influência da minha psicóloga, eu tive que fazer terapia na época tava mal, ela me incentivou a cantar o que tava escrevendo. E aí fui me reencontrando, porque na verdade eu tava tentando encontrar quem era aquela pessoa desassociada. Porque nesses quase 11 anos eu fui a “mulher de fulano” , a “namorada de fulano”, eu não era mais eu. Eu não sabia mais quem eu era. Eu amadureci da adolescência para idade adulta dentro de um relacionamento e eu acho que a música foi um processo de auto descoberta, de me ver enquanto mulher, de construir essa autoconfiança. Foi e está sendo um processo para mim e a música foi importante para esse processo sair, subir o primeiro degrau. Então sem dúvida foi um renascimento. Na vida a gente tá sempre renascendo e se reinventando com as coisas que vão acontecendo. Então sem dúvida a música foi um reencontro comigo mesma e ao mesmo tempo uma descoberta de uma pessoa nova. Por isso eu considero um renascimento.

Você comentou que “Renasço” será lançado por meio de singles, o que te levou escolher esse formato?

Com esse processo de eu decidir levar a música como o que quero para minha vida, eu comecei a estudar um pouco mais sobre produção cultural, produção musical, a maneira como as coisas estão acontecendo. Estudar além do fazer a música. O que tá por trás, o que vem antes e o que vem depois. E a gente como artista independente assume dez milhões de funções, principalmente quando a gente não tem uma grana para investir. A gente tem se virar nos 30 mesmo. Daí eu comecei a estudar. Eu ainda não sou muito conhecida, e quem tem um trabalho autoral tem um pouco mais dificuldade de atingir um público maior. Então fui pesquisar as maneiras de colocar meu trabalho para frente. E quando eu pensei nos singles eu pensei em duas coisas : primeiro como eu não tenho a grana talvez eu não conseguisse fazer o álbum completo de vez, as dez músicas que tenho planejadas. Eu fiz o financiamento coletivo como pré-venda do álbum, mas pensando que poderia não rolar. E aí a gente entrou em isolamento social, numa pandemia E aí que não sei mais de nada mesmo! Então primeiro foi essa questão da grana. E pensei também nessa questão da movimentação, eu queria muito produzir material novo para escrever em edital, festivais. Algo mais pensado, elaborado. Porque “Tormento” eu nem cantava, nem subia no palco, não tinha troca com as pessoas. Então foi um período mais de aprendizado do que qualquer coisa. E eu queria que esse “trabalho mais trabalhado” (risos) para apresentar, para me dar mais possibilidades dentro do meio musical. E quando pensei nos singles eu pensei porque eu gosto muito de trabalhar com visual, com ideia da música multidisciplinar, arte multidisciplinar. Eu associo muito o que ouço a imagens, o que eu vejo a música. Minha cabeça trabalha de um jeito que não sei explicar direito. Eu não consigo separar as coisas. Então eu quero contar as histórias das minhas músicas do jeito que minha cabeça entende, pensando em dez mil coisas ao mesmo tempo. Lançando os singles eu consigo trabalhar melhor essa parte visual, quero fazer clipes, claro que vou precisar repensar esses clipes nesse momento de pandemia. E assim eu também consigo movimentar minhas redes. A gente tá vivendo num processo que tem muitas produções e gente lançando coisa nova o tempo inteiro. Eu não vou ter a oportunidade de lançar um disco agora e ficar um tempão sem lançar coisa nova, porque as pessoas querem consumir algo novo o tempo todo. Eu nem sou tão conhecia e já sinto isso, eu lancei um single ( “Tipo Iansã encontrando Obaluaê”) e já tem gente perguntando quando vai sair música nova. As pessoas querem ser alimentadas. Ao mesmo tempo a gente que faz arte não tem como programa essa produção, pelo menos eu não consigo programar essa produção pensando em mercado. Eu tô aproveitando que já tem bastante coisa já pronta, escrita, agora finalizando arranjos, enquanto eu vou gravando o disco junto com Fabrício ( Rossini), pra ter esse material e já ir lançando aos poucos. Para eu me comunicar bem, com os videos e clipes e estar sempre movimento minhas redes

Quais são suas referências musicais?

Essa é sempre uma questão que me pega. Eu tava citando um dia desses que eu tava vendo uma entrevista do Getúlio Abelha na Rádio Bueiro. Que as referências é tudo que a gente ouve, e eu me senti muito representada. Porque sempre que chega em uma entrevista que vem essa pergunta eu penso nisso, que tudo que eu consumo é referência pra mim. Várias coisas que eu vejo são referências pra mim. Tudo que eu passo, independente de ser música. Filmes, clipes, vivências. Inclusive músicas que a gente vive, coisas que não são registradas, mais populares. Às vezes não é algo consciente mas é referência. É a mesma coisa quando me perguntam qual meu estilo de música. Eu também não sei definir. O ep “Tormento” saiu mais arrocha-bregoso porque era meu momento, não quer dizer que minhas músicas serão sempre desse jeito. É como as coisas vão saindo, é o que eu ouvi, é como os sons estão reverberando na minha cabeça. E as referências são a mesma coisas, elas vão rolando, até de músicas que eu nem escuto tanto, mas que traduzem o que eu quero falar. E ai vou pegando referências aleatórias. Então vai ter referências de rock, de brega mais antigo, que é música romântica na verdade, vai ter influência do nosso forró, da MPB, da música brasileira mais nova, tecno-brega também. Não consigo me prender e consciente definir minhas referências, sorry!     

O que tem ouvido na quarentena?

Eu comecei a quarentena ouvindo bastante coisa daqui de Sergipe, alguns artistas que eu ainda não conhecia. Eu costumo ouvir músicas do candomblé, desde as mais tradicionais até as releituras, eu gosto bastante e tenho ouvido muito por conta desse momento da quarentena, de altos e baixos, muitos baixos e essas músicas me ajudam a atravessar isso e a matar a saudade do Ilê também. Como eu sou ansiosa me ajuda a volta um pouco para o agora. Eu também tenho botado no aleatório para conhecer coisas novas, às vezes novas pra mim né, do que tá rolando no cenário atual brasileiro. E sempre volto pra aqueles rock que eu ouvia quando era adolescente, dou sempre uma visitinha. No axé e no pagode também. Porém nesse período o que tem sido mais forte é os axé de candomblé mesmo. 

Você já fez dança, hoje está na música. Existe alguma outra expressão artística que deseja explorar?

Eu fiz dança, teatro, música, sempre gostei de pintar, faço crochê, gosto muito de trabalhos manuais , minhas amigas até brincam comigo que sempre tô desenhando coisinhas pequenas, isso me acalma. O que eu venho tentando explorar é como inserir essas outras artes que eu gosto na música, no show. Agora mesmo para o Reinvente-se eu costurei meu figurino. Tipo usar a arquitetura e pensar na cenografia. Eu gosto muito de filmar, de filmar coisas, as vezes eu fico fazendo uns videos meio loco e tô roteirizando todos os clipes do Renasço, tô aí conversando com Thiago uma parceria de direção, porque né? nesse momento de pandemia e falta de grana a gente tá pensando como vai viabilizar isso tudo. É uma parada que eu gosto muito do “por trás das câmeras”

Como é seu processo de composição?

Eu tenho dois processos de composição, ou surge um tema, uma frase ou texto do nada e aí discorro esse texto e depois eu vou atrás da melodia. Esse processo acontece menos. Ou surge alguma frase com uma melodia, e aí eu vou compondo com essa frase e melodia. Por algum motivo que eu sinceramente não sei qual minhas composições e meu processo criativo é mais ligado a relações. E aí logo no início essa coisa mais sofrência, e aí vou compondo e vendo que mesmo que não seja da sofrência é sobre a relação comigo mesma, dessa autodescoberta, autoconhecimento. Então sempre tem haver com esses processos meus. Me relacionando com outras pessoas, comigo mesma, com meu filho, com um boy ou uma girl, relação com uma amiga. Relações em geral mesmo, no começo teve essa pegada de sofrência e relacionamentos amorosos porque o estalo veio de uma decepção amorosa, o start veio a partir disso. 

Pra fechar suas músicas falam muito de amor, paixão, uma certa sofrência. Você acredita no amor?

Claro que eu acredito no amor! Tem essa coisa da sofrência porque eu tava muito decepcionada, e como falei antes eu vim de um relacionamento muito longo, então nem sabia mais quem eu era, nem sabia mais paquerar na vida, me relacionar com outras pessoas. Eu sabia o que a maneira que eu tava vivendo não era legal, mas também não sabia outras formas. E na verdade a gente vai descobrindo com a vida que essa coisa de autocuidado e amor próprio se você não trabalha isso primeiro e antes de tudo seus relacionamentos todos serão fracassados. Porque se a gente não tem nunca esse autocuidado a gente não sabe pra onde tá indo e até onde a gente vai com o outro. As pessoas tem muito essa coisa do outro fazer mal, mas a gente também pode fazer mal a alguém se a gente não se entende e tá sempre buscando no outro essa tal felicidade que as pessoas falam tanto. Eu acredito no amor, como eu não vou acreditar?, eu tenho um filho e eu amo ele profundamente. E no amor romântico eu acredito também. Eu sou uma pessoa muito fácil de amar o outro, acho que minha maior dificuldade é com o amor próprio, porém é algo que venho trabalhando. Eu acredito em toda forma de amor, como diz Lulu Santos.  

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial