Entrevista com RDD ( ÀttooxxÁ) – “Meu desejo é rodar o mundo”

Foto: Instagram pessoal @rafadiasdays

Quem ouve a voz mansa e cheia de baianidade de Rafa Dias ( Aka RDD), nem imagina as inquietações que passam por sua cabeça. “Às vezes eu paro pra criar, às vezes nem paro”, diz ele sobre seu processo de criação. Das experimentações afrofuturistas com o Braunation, a digitalização do pagode com a A.MA.SSA, o cangaço hi-fi com Os Nelsons, a exploração afro contemporânea do Ziminino e um pouco disso tudo dentro do ÀttooxxÁ. O amor por sua cultura e o desejo de torná-la universal é o que o move. Ao lado de nomes como Baiana System, IFÁ, Underismo, Baco, Nêssa, Oquadro, Afrocidade, Luedji Luna, Larissa Luz e muitos outros, ele vem reinventando a música afro-pop baiana.

E mesmo com a pausa forçada da pandemia, RDD não deixou de trabalhar. No início deste mês, ele lançou o primeiro passo do projeto solo do qual o single “We go hard ” é o abre-alas. No último dia 18, a música “Me Gusta”, da cantora Anitta com participação da cantora estadunidense Cardi B e do porto-riquenho Myke Towers, teve lançamento mundial e vem com assinatura de RDD como um dos produtores. “Meu desejo é colocar a música da Bahia no mundo”. Com tanta dedicação ao trabalho, não tem como duvidar que ele pode chegar lá. Trocamos uma ideia com RDD na última semana para saber um pouco mais sobre seus planos e projetos para o futuro.

Você sempre esteve envolvido em diversos projetos tanto como músico, quanto como produtor. O que você sente vontade de fazer na música, mas que ainda não conseguiu?

Eu tenho muita coisa que desejo realizar, como produtor e como músico. Agora eu tô dando o primeiro passo de um desses desejos, que é colocar a música da Bahia no mundo. Saiu essa com Anitta, vai sair uma com o Major Lazer, teve a do RDD com o Agent Sasco,que foi tipo assim, sonho. Tá pra sair muita coisa ainda. E outro desejo é fazer mais turnês, rodar o mundo mesmo. A gente focou nossa carreira nos últimos três anos aqui no Brasil, a ideia é dar uns rolê fora.

Como é seu processo criativo?

O meu processo criativo não tem muito pé e nem cabeça não. Às vezes eu paro pra criar, às vezes nem paro. Tô aqui na minha cama e me vem uma melodia na cabeça, aí eu canto a melodia e deixo arquivada. Ou se não vir uma melodia de voz, sei lá vem de guitarra. Não tem muita organização, da forma que vem chegando eu vou fazendo.

O que você costuma ouvir em casa?

Em casa realmente eu escuto de tudo! Eu não tenho um gênero. Escuto de música de meditação a heavy metal, trap a música pop. Eu acho que pra ter esse som diferenciado, a visão, o melhor caminho é ter essa atenção com todos os sons do mundo. É através disso que você consegue traduzir, que você abre o leque, e aí você tem diversas possibilidades e combinações, ritmos. Para não pisar no freio é que a gente tem esse som mais plural.

Hoje se fala muito de afrofuturismo, você já dialogava com essa estética há quase dez anos no Braunation. Como foi seu despertar para esse movimento?

O afrofuturismo Mahal (Mahal Pita é produtor musical e foi parceiro de Rafa Dias no Braunation e no duo A.MA.SSA ) me apresentou na época da Brau. Um movimento né? Não sei se é um movimento ou um caminho. Pelo menos pra mim é um caminho, sinto assim. O afrofuturismo faz parte da minha vida, não consigo mais dissociar. Você começa a ter um olhar de outra forma, você olha um monumento, é um outro pra vida mesmo. Musicalmente começa com o Sun-Ra há muitos anos atrás. Ele começa a traduzir a música que ao mesmo tempo é de raiz e ao mesmo tempo é interplanetária, cósmica. Eu acho que hoje, a minha tradução do afrofuturismo é manter musica de raiz, a música tradicional, o samba duro, o samba-reggae, todas essas músicas de matriz afro e tentar levar ela para novas possibilidade de diálogos. O afrofuturismo tem esse papel de apresentar a música de raiz com uma nova cara, uma cara que reflita o presente ou o futuro. Falo presente porque antes eu refletia só no futuro e hoje eu tento refletir ela no presente. Como o samba-reggae e o samba de roda pararam em coisas datadas lá atrás, a gente tenta apresentar ele no presente.

Como surgiu o convite para produzir a música da Anitta com a Cardi B e como foi fazer esse trabalho?

Em 2018 a gente fez o hit do carnaval “Elas Gostam” e foi nesse ano que a gente estreou o nosso trio de música eletrônica com Tropkillaz e Major Lazer no carnaval de Salvador. Aí a gente convidou ela pra tocar no nosso trio, ela convidou a gente pra tocar no trio dela. Então a gente começou a conexão há dois anos. A gente começou a nos seguir no instagram, a conversar sobre música, às vezes ela falava “seria massa a gente fazer um som” e tal, só que na época ela tava estourada com “Vai Malandra”. E a gente já tinha visto ela traçando esse caminho para o mundo, só que a gente não imaginava que ela escolheria o pagodão para apresentar para o mundo, nessa proporção de hit. E aí surgiu a ideia, ela me mandou um zap “vou te botar em contato com o cara que tá produzindo a música”, que é o Ryan Tedder, que é referência pra mim dessa música pop. O cara fez Umbrella de Rihanna! Na época que saiu eu consumi demais. E porra, fazer um som com o cara que referencia pra mim, aí você dimensiona o mundo no bagulho, aí você sente um pouco do peso “vamo fazer um som pro mundo”. Como era o nosso som que ela queria então tudo rolou tudo muito natural. Essa troca com o Ryan foi natural também, ele já tinha feito um esboço, eu refiz aqui e mandei, ele olhou de lá, depois entrou o brother do “Despacito (Mauricio Rengifo), ou seja um trabalho a várias mãos que me sinto muito honrado de ter participado.

Você acredita que o pagodão vai ter o alcance internacional que tem o funk carioca e o kuduro, por exemplo?

Eu acho que tem potencial. Eu direciono minhas forças mais do que nunca para isso. E acredito sim no potencial dele. Com a experiência que eu tenho hoje, não descarto, mas também não dou a certeza, apenas trabalharei do jeito mais alto para fazer isso acontecer.

Além de ser um projeto solo, quais as outras características que diferenciam o RDD de seus outros trabalhos?

O  ÀttooxxÁ, apesar da gente também fazer música para o mundo, a gente vem buscando concretizar coisas no Brasil, o RDD eu tô tentando concretizar ele no mundo. Sem deixar de olhar para o Brasil claro, mas voltado para o mundo. Eu tô com uma editora, então a ideia é fazer vários roles pós-pandemia, e colar nos produtores gringos. Eu já tô fazendo isso daqui, mas a ideia é estreitar esses laços, encurtar esses caminhos.

ÀttooxxÁ  conseguiu conquistar um público chamado de ‘alternativo’ que por muitas vezes rejeitou o pagodão, a quebradeira. A quem ou a que você credita essa mudança de olhar desse público?

A nossa idéia sempre foi fazer música pro mundo, fazer essa música pop da Bahia e, ao falar de música pop da Bahia, não é só pagodão, é o arrocha, o samba-reggae, vários gêneros que a gente dialoga. Eu acho que a mudança vem muito da nossa postura, da nossa postura como ser humano. Uma nova postura dentro do pagodão, dentro desse universo da Bahia. De abraçar todas as possibilidades, de abraçar todos os ritmos, de tudo. E aí você vai para nosso show em qualquer lugar do Brasil e realmente tem de tudo, todos os gêneros, todas as classes. A gente abraça a galera e a galera abraça a gente. 

Por fim, o que podemos aguardar de RDD ainda nesse 2020?

Nesse fim de ano ainda vai ter muita onda. O RDD eu tô fracionando em vários formatos, vai sair três Eps, um de feats internacionais, outro mais Bahêa, e outro para maiores de 18 anos que vem com várias inéditas. Paralelo a isso eu tô organizando meu canal no Youtube, onde vou soltar todos os remixes que trabalhei nesses anos todos, que não tinha por que ou onde soltar e agora tô direcionando pra isso. O ÀttooxxÁ deve soltar mais duas ou três tracks, superhits, nesse projeto de verão que todo ano tem aqui, apesar da pandemia vamos manter o calendário. E o Ziminino também tem mais duas tracks pra sair esse ano. É isso que nós temos para 2020 ainda, muito trabalho.

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