Entrevista com Julico da banda The Baggios

Foto: Instagram pessoal @julicovisk

“Nesse mundo doido/ Seguiremos fortes/ Vamos todos se ajudar”  essa é mensagem final de “Quarentena Serigy” , novo single da banda The Baggios, onde a banda e uma leva de grandes convidados cantam os desejos e anseios do mundo pós-pandemia. E foi nesse clima da análise do presente e planos para o futuro que conversamos com o guitarrista e compositor da Baggios, Julio Andrade, aka Julico. Nesse bate-papo exclusivo que abre a seção de entrevistas do blog Chá de Fita, Julico conta sobre novas sonoridades para Baggios, trabalho solo, política, quarentena e o que esperar desse mundo doido.

A música e o clipe “Quarentena Serigy” foram produzidos nesse período de isolamento. Como foi a experiência de fazer todo esse processo sem contato direto com os outros músicos da banda e os artistas que participam?

Esse desafio que nos foi colocado, serve também como um incentivo pra gente se reinventar, mudar fórmulas, mudar direções. Eu vi nesse clipe e nessa música uma oportunidade de buscar outros caminhos, outras identidades. Por mais que a gente tivesse inseguro, lá no começo da produção, sem saber como ia ficar o resultado final, a gente tinha uma consciência de que não podia exigir demais do resultado, saca? Então isso fez com que a gente trabalhasse de uma maneira mais leve, de uma maneira que todos entenderam a proposta, e o processo fluiu da melhor maneira. Eu achei bem interessante. Foi também a prova de que é possível fazer algo bacana mesmo em condições não muito favoráveis. Vem esse impulso, essa instiga de continuar fazendo algo dentro das limitações, sem grandes equipes ou equipamentos, mas passando e transparecendo um sentimento né, uma sensação que a canção já trazia, a gente só fez um esforço a mais pra acrescentar essa força imagética, de forma leve mesmo, ainda que a canção fale de algo mais pesado.

Foi muito comentado que a letra é bem política e direta, o momento pede uma crítica mais contundente à situação do país?

O Brasil chegou numa situação em que é impossível não se incomodar ou deixar de comentar determinados temas. Eu creio que nosso posicionamento político é uma coisa obrigatória mesmo. Estamos atravessando várias crises ao mesmo tempo. Uma crise política – que o retrato são essas manifestações fascistas, assustadoras, de pessoas ditas apoiadoras do governo federal -, uma crise social, que somaram-se à esta crise da Saúde, com pandemia de coronavírus, etc. Mas é um momento também da gente reagir e assumir nosso papel de formadores de opinião, afrontosos, senão o monstro engole a gente. Quanto mais a gente relaxa, mais a gente possibilita que essas pessoas dominem o poder, dominem o país. A gente se vê ali acuado e eu acredito que se a pessoa se cala, se recolhe nesses momentos, ela acaba ajudando esse poder a crescer. A música (Quarentena Serigy) tem um tom político mas tem também um tom humano, do contato, do afeto, da empatia, da saudade que a gente tem de ir e vir nos lugares. Sendo brasileiro nesse momento, é impossível não pensar na queda do presidente na hora de compor, é um desejo meu forte, sonhar pra mim é isso. É o que vem de dentro da alma, você quer o melhor pra você e para os outros ao seu redor. Eu vejo nesse governo um retrocesso, uma forma muito grotesca de tratar coisas muito sérias.

Você estreou um canal solo no Youtube, tocando coisas que você curte ouvir, que são influências para você. É um espaço apenas para mostrar suas influências musicais ou também vai servir para divulgação do seu prometido disco-solo?

Eu fiz esse canal no YouTube pra me organizar e de repente me motivar a criar conteúdo, preparar o território para quando lançar o disco solo.  O disco vai sair aos poucos, dia 17 de julho já tem lançamento marcado do meu primeiro single. É uma música que também tem um teor político forte, uma música chamada “Nuvens negras”, que eu escrevi a letra quando rolou toda aquela história das queimadas na Amazônia. O número de queimadas aumentou muito, devido toda a facilitação que o governo propôs para as pessoas, meio que dando aval para que essas pessoas que destruíssem as florestas e continuassem destruindo. Tudo isso por um interesse econômico puro e simples. É foda essa visão onde a economia tá à frente de tudo e o dinheiro à frente de todos. Eu vi essas atitudes ganharem importância e as pessoas esquecendo outras coisas que são essenciais à vida. Então essa música fala um pouco sobre a aposta do país em um “político herói”, que vai salvar o país de problemas enraizados há anos, como a corrupção quando a conduta deles mostra totalmente o oposto do que foi prometido. E a culpa é desse “herói urgente” que o país elegeu, quando enxergou potencial num cara sem preparo nenhum. Essa nuvem negra que cito a gente já vem atravessando desde de 2015, vendo nosso bonde indo para as camadas mais sombrias e subterrâneas. O disco solo vai rolar, é uma forma de eu também explorar um outro caminho. Eu já tinha uma paixão pela música soul, funk, aquele samba soul brasileiro do Tim Maia, aquela onda do Curtis Mayfield, Funkadelic, Antonio Carlos e Jocafi, aquela música brasileira mais suingada dos anos 70 principalmente. A Baggios tem isso mas tem também uma camada mais volumosa de influências. Já esse trabalho tem uma direção mais decidida, um segmento mais certo pra seguir.

Em uma live para site Popload você afirmou que o ciclo de Vulcão está se encerrando, com isso podemos deduzir que outros sigles devem sair esse ano ainda?

É o Vulcão foi um disco que infelizmente não conseguimos circular no Brasil com toda força que nós queiramos. Teve problema de logística quando ele foi lançado, porque ele foi lançado numa data bem ruim entre o primeiro e o segundo turno da eleição de 2018, então a gente acabou tocando pouco ele em 2018, em 2019 a gente fez uma turnê na Europa, fizemos alguns shows pelo Brasil e esse ano de 2020 seria o ano que a gente ia melhor explorar ele. Teria uma turnê pelo nordeste, datas confirmadas no sudeste, outra turnê na Europa. A gente já tinha planos de lançar singles, pra fazer essa transição, essa mudança de pele. Agora a gente tá focado nessas coisas que já estavam rascunhadas. Vulcão foi um disco que trouxe muita felicidade pra gente também, agora já estamos pensando como será o próximo, tem um single sendo preparado, outro em processo de mixagem, que foi uma música que eu fiz no período do Vulcão, mas que não tem a pegada do Vulcão. Tem uma linguagem diferente, e cabe muito bem como single, como essa transição entre um trabalho e outro. Serve pra gente estudar o que a gente quer explorar no próximo disco de sonoridade, de tema. Mesmo com todo esse baixo astral que a pandemia nos causa, eu tô animado em produzir coisas, em oferecer algo pra galera que curte nosso som, algumas mensagens, alguns fragmentos de alegria.

Algumas “soluções” estão sendo testadas para volta do eventos, como shows com drive-in que já são realidade nos EUA e na Europa. Você tem acompanhado essa discussão? O que você acha que deve mudar nos eventos daqui pra frente?

Eu tenho acompanhado sim essas soluções, essas formas de compensar a ausência das casas de show e grandes festivais nesse período de pandemia. E acho bem inteligente, as pessoas buscando formas de suprir essa necessidade da cultura, de se manter viva e expressiva, acho que a gente precisa dar muito valor a essas iniciativas. A cultura tem essa forma de se readaptar ao mercado, à realidade. Eu espero que surjam outras formas e que os artistas tenham retorno com essas experiências. Quem vive de arte acaba tendo essa dificuldade de ter um retorno financeiro pra se manter, como a gente vive exclusivamente desse ofício é importante pensar alternativas. Eu não acredito que tudo vá mudar completamente, acho que o comportamento, a cabeça pode até mudar, mas a pandemia é uma transição de uma Era. Foi preciso parar o mundo pra gente mudar realmente. Eu acredito na volta dos festivais, das casas de shows, mas acredito que esse mercado de lives vai criar um novo hábito e talvez as pessoas se acostumem a coisas assim em casa. Qual vai ser o impacto dos shows pós-pandemia? Qual vai ser o impacto do público? Se vai preferir ir ao show ou acompanhar do sofá de casa, isso é o que me deixa mais intrigado. Eu sou otimista apesar de estarmos nessa bad, mas que esse momento sirva de reflexão e de mudança. O mercado da música já tava estagnado, beneficiando as mesmas pessoas de sempre e espero que mude pra melhor, que os artistas independentes consigam mais espaço e força pra que possam crescer, sair do subterrâneo.

A The Baggios lançou um projeto de lives onde troca ideia com outros artistas e trabalhadores da cultura, algo não muito comum entre artistas. Esse momento é também de explorar novos formatos?

No caso da The Baggios, a gente continuou ali botando a cabeça pra funcionar, explorar formas diferentes, não só pra gente, mas para o nosso público também, uma forma de oferecer um conteúdo, contribuir de alguma maneira com informação, opinião e passar um outro tipo de informação. Acho massa o diálogo, a conversa ali. Informação é fundamental nesses tempos, tempos de notícias falsas, que a gente a precisa filtrar um pouco. Claro que a gente limita ao que gente entende, a gente não vai falar ali de covid-19 de uma maneira muito ampla, mas podemos dar dicas de trabalhos, de ocupações, de terapias, de coisas em que a música sirva para ajudar as pessoas. Também trazer pessoas que a gente admira para perto da gente, deixar o registro gravado no nosso perfil, e deixar eternizado até essa ferramenta do Instagram , YouTube também quem sabe.

O que você tem escutado nessa quarentena? Além de música o que mais tem ocupado seu tempo na quarentena?

Cara eu tenho escutado muito Tetê Espíndola, MPB-4, Ednardo, Milton Nascimento. Agora eu descobri uma banda que eu gosto muito lá da região norte da África, do deserto, é o Songhoy Blues. Eu tô ouvindo muito também o Artur Veroccai. Umas coisas de psicodelia brasileira, Perfume Azul do Sol, Assim Assado, são bandas que eu me amarro e eu tenho escutado bastante. E além da música o que tenho feito é desenhar, desde janeiro em venho me dedicando e comprei uns materiais diferentes, canetas, agora tinta acrílica, botando essa cabeça que não é pequena pra funcionar e explorar novas formas de criação. Eu tenho feito muita música, também, aprendido a mixar, fazer demo. É um momento de aprendizagem. Tô lendo muito também, tô lendo um livro chamado “A Queda do Céu”, que é um livro narrado por um xamã Yanomami (Davi Kopenawa) , ele se junta com um jornalista francês (Bruce Albert) e narra sua vida, como ele se torna xamã. Eu tô me aprofundando mais na cultura brasileira e eu me cobro muito nisso, eu quero realmente ter propriedade pra explorar e falar mais sobre a nossa gente, nossa cultura.

Por fim, ainda é possível fazer planos para 2020? como você se imagina daqui a seis meses?

O ano de 2020 é uma névoa, não consigo enxergar com clareza daqui a um mês, dois meses. Tá tudo meio embaçado, meio turvo, mas parece que tô me acostumando à situação de está preso. Isso que é foda. O ser humano é muito adaptável, a gente sofre no começo, mas depois tá ali vivendo uma outra vida, tornando a coisa comum, criando rotinas. Tento não me alimentar por esse caminho das incertezas,  da angústia e  da ansiedade. Por mais que esses sentimentos venham me visitar às vezes eu tento ser o mais otimista possível, vendo como uma maneira de estar mais próximo das pessoas amadas, mesmo que virtualmente, mandando mensagem, estar com minha família, que quando a gente tá na correria de turnês e shows a gente fica mais fragmentado e acaba não dando essa atenção devidamente. E é isso, espero que seja um ano reconciliações, das pessoas que tenham desavenças, problemas com as outras venham a se resolver. Por escolhas mais certeiras, que a gente possa se ver mais importante no que faz e mais forte também. Eu vejo como período de transição e renovação e de se aprofundar em você mesmo, que as pessoas usem esse tempo pra se conhecer mais e buscar aperfeiçoar esse lado espiritual, que é onde a gente acaba tendo mais forças pra se manter acordado e com coragem de encarar esse mundo doido.

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