Entrevista com Isis Broken – “O isolamento social sempre existiu pra corpas trans”

Foto: Instagram pessoal @isisbroken

Como já diria Sancho Pança (personagem do livro Dom Quixote): “Não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem”. Se fosse possível que Sancho Pança encontrasse a cantora Isis Broken ele certamente não teria dúvidas. Na canção “O Clã” ela mostra toda a sua magia nos beats, e o clipe da música já ultrapassou a marca de 20 mil enfeitiçados no Youtube. Em dezembro passado o clipe ganhou o prêmio de melhor figurino no Music Video Festival, quando conquistou a bancada de jurados composta por Laís Bodansky, João Wainer, Marcelo D2, Ricardo Laganaro e Aisha Mbikila. O trabalho concorreu com nomes de peso da música nacional, e levou o prêmio por unanimidade. 

No bate-papo com Isis, falamos sobre bruxaria, cangaço, o seu aguardado primeiro álbum, novas produções e sobre o isolamento social para pessoas trans no Brasil.  

 Como começou sua história na música?

A música sempre esteve muito presente na minha vida por conta da minha família. Meu avô era repentista, meu bisavô também, meus tios são músicos, tem um que toca sanfona, teclado, bateria, violão. Praticamente uma banda formada na minha família! Então a música sempre foi muito presente. Também por parte de pai eu tenho influência do gospel, tenho tias que se lançaram no mercado gospel. Eu vivi dois mundos, de cantar na igreja com minhas tias e cantar no terreiro com minha mãe. Foi uma dualidade muito boa que de certa forma reflete no meu trabalho.

O clipe da música “O Clã” é um sucesso, ganhou prêmios e ainda rende frutos. Como foi a construção desse clipe?

Eu fui invocada pelo Raymundo Calumby que é o diretor do clipe e ele chegou com a proposta do clipe, ele tinha assistido um show meu aqui em Aracaju e gostou muito da música. Ele mora em São Paulo, mas é sergipano e aí rolou esse convite. E aí a gente ficou namorando esse clipe uns seis meses, discutindo sobre estética, o que eu queria. Porque era meu primeiro clipe, eu queria tomar esse cuidado. Por isso demorou pra sair, porque ele precisou ser estudado. E foi gravado em seis dias, nós fomos para Pacatuba. E foi incrível porque fomos para um povoado e a população abraçou muito a nossa ideia, quis participar. Foi bem lindo como eles me receberam. O clipe recebeu um prêmio muito importante no Video Music Festival, concorrendo com Criolo, Urias, Teto Preto, com esses artistas incríveis que eu sempre amei ouvir, foi um presentão das deusas.

Como surgiu a ideia de conectar bruxaria e cangaço?

O cangaço sempre esteve presente na minha vida, a gente que é sergipano tem muitas histórias do cangaço. Meu bisavô foi coiteiro de Lampião, no alto sertão sergipano. E foi lá que ocorreu o conflito que a gente conhece né, na Grota do Angico em Poço. Eu sou historiadora e nas minhas pesquisas sobre cangaço eu descobri que existiam bruxas cangaceiras, e foi todo um processo de procurar artigos e ler muita coisa interessante sobre essas bruxas, elas realmente existiram. Elas curavam os cangaceiros, de ferimentos de faca, de bala. Existia um sincretismo dentro do cangaço. E também fazendo uma analogia com corpas trans, nossas corpas são como de corpas de bruxa, que vivem nas entocas, que só podem sair na luz da noite, e meu primeiro álbum é sobre isso, a luz da noite.

É possível ver diversas influências no seu trabalho, como você o define sua música?

Eu gosto de falar que é um trap-witch. Porque tem essa coisa da bruxaria, todas as minhas músicas pelo menos nesse primeiro álbum eu venho buscando essa vertente de trap e bruxaria e é algo muito interessante porque eu vi que essa modalidade estava se formando. Tem as Princess Nokia que fez uma música muito foda que é um trap-witch, tem a Azaleia Banks que também é bruxa, tem a Laysa que é brasileira que tem uma música Witch Trap. Acho que um movimento de bruxas, que acordaram, saíram de suas tocas e agora estão invadindo o mercado da música. É assim que defino minha música, mas assim eu também não gosto de me definir. Vai ser um álbum muito versátil, mas sem fugir do tema, da estética e desse compromisso com o trap-witch.

Você falou da dificuldade financeira para o fechamento do seu álbum de estreia, pensa em fazer algum tipo de campanha de financiamento coletivo para concluí-lo?

Não. Eu fiz um financiamento coletivo para o clipe de Capeta Gasolina, acho que foi legal e tal, mas não senti uma resposta efetiva. E também estamos passando por um momento de pandemia , um momento mais frágil financeiramente pra todo mundo. Mas o álbum vai sair! Tem fãs que se propõe a ajudar, que já pagaram produção de música. Quem quiser ajudar pode vir na minha DM e falar comigo.

Além do álbum no que mais vem trabalhando no momento? A quarenta mexeu com seu modo de criação?

Do início da pandemia até agora eu realmente não produzi. Eu achei que senti que essa pausa era necessária. Estacionei o álbum, estacionei tudo. Porque tava existindo uma pressão de “você tem que produzir”. A quarentena me fez repensar meu modo de produção. E foi importante para me reconhecer, encontrar alguns caminhos que eu acho que não tava conseguindo encontrar. Porém, ao mesmo tempo, eu estava tecendo uma rede de apoio para que esse álbum acontecesse. Não trabalhando em músicas, mas trabalhando pra ele acontecer, buscando parcerias. Fechei um segundo clipe com o Raymundo Calumby. Tá vindo coisa boa por aí!

Você disse que corpos trans já viviam em isolamento social muito antes da pandemia, como é fazer parte de uma geração de artistas trans que vem quebrando esse muro da invisibilidade na música?

O isolamento social sempre existiu pra corpas trans, o sistema cis gênero não percebeu o quanto o isolamento social fere as corpas, existências e histórias e nosso isolamento social também provoca doenças mentais para corpas trans. Agora que esse isolamento pesou sobre corpos cis a coisa doeu mais, incomodou, mas porque corpo cis gênero tem um poder e querem exercer esse poder de qualificação sobre uma corpa trans. A desclassificação desta corpa vem desse isolamento social. Quantas corpas travestis você teve no seu natal? Quantas travestis estudam com você? Quantas travestis trabalham com você? Quando você se faz essa pergunta, elas vão lhe respondendo também. Esse isolamento social de corpas trans já existia e ele causa muitos problemas psicológicos. Inclusive 98% da população trans está à margem, na marginalização, na prostituição. Então se 98% de uma população está marginalizada não existe problema com essa população, existe um problema com quem está marginalizando essa população, que está isolando socialmente esses corpos. Agora que esse isolamento cai sobre corpos cis é que existe uma preocupação com a saúde mental, por exemplo.

O que tem ouvido na quarentena?

Eu tô ouvindo muito artista lgbt brasileiro, tô primando muito por isso nesse momento porque é momento de apoio e temos que apoiar os nossos. Eu participo de uma playlist chamada Colorides que são com artistas lgbt, todos independentes, ai tem grandes nomes como Mc Xuxu, Getúlio Abelha, uma porrada de gente incrível. Virou uma playlist oficial no Deezer e no Spotify ela ainda é nossa, mas pode ter acesso igual. Toda semana tem uma artista lgbtq novo na capa que é para o público conhecer. Ouçam e consumam artistas brasileiros, deem suporte.

Tem desejo de trabalhar com outras artes como cinema ou teatro?

Sim, já trabalhei com cinema e teatro. Eu gosto de trabalhar com backstage. Trabalhei na direção de fotografia de um curta sergipano “Silêncio de Alice”, foi um presentão. E trabalhei no teatro também com direção de fotografia no espetáculo “Billie Holiday, a canção“, escrito pelo  Hunald Alencar, nosso escritor que deixou muita saudade. Foram trabalhos incríveis que eu curti muito. Eu gosto dessa magia que existe por trás, de tudo aquilo que tá conectado com o que tá rolando ali no palco, com tudo que acontece para peça ir ao palco. Mas eu gosto sim de atuar, tem uma proposta aí de cinema, mas vamos ver no que vai dá.

O que a música representa para sua vida?

A música é um combustível, um combustível de vida mesmo. Se eu não estivesse fazendo música eu não sei o que eu estaria fazendo.

One thought on “Entrevista com Isis Broken – “O isolamento social sempre existiu pra corpas trans”

  • 3 de agosto de 2020 em 14:46
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    Muito obrigada pelo papo maravilhoso 🖤

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