Entrevista com Diane Veloso – “Arte é política e não tem como não ser”

Foto: Instagram pessoal @diveloso

Diane Veloso é o que chamamos de multiartista. Ela é atriz, cantora, apresentadora, já fez dança, dirigiu um curta, escreve roteiros para teatro e cinema. Além disso tudo, ainda consegue aliar arte e ativismo. É difícil encontrar palavras que dêem conta de traduzir tamanho talento. “Sempre tive muita ligação com a arte, sempre busquei esse caminho”, afirma.

E diante de um currículo tão extenso, não há como duvidar. Ainda que 2020 tenha sido um ano muito complicado para a classe artística, Diane Veloso conseguiu se manter ativa. Lançou um single com A Banda dos Corações Partidos e realizou uma apresentação teatral de modo virtual. É sobre as realizações e desafios do ano que passou ( apesar da sensação de que não terminou), e dos planos para 2021 que conversamos com Diane Veloso na entrevista que você pode ler abaixo.

Diane, fale um pouco da sua história antes do teatro e da música.

Eu comecei a fazer dança muito cedo, pequena mesmo. Somos quatro mulheres aqui em casa e minha mãe conheceu a Lu [Lu Spinele,do StudioDança]. Fomos as primeiras alunas da academia dela. Fiz sete anos de dança e depois parei. Mas sempre tive muita ligação com a arte, sempre busquei esse caminho. Na escola mesmo, sempre estava voltada às possibilidades artísticas do que às da própria escola, que sempre foi um drama (risos). Essa coisa da disciplina escolar, de ficar sentada assistindo aula, sempre foi problema para mim. O lugar que me fazia ficar presente na escola eram todos os caminhos que me levavam a algum processo artístico, e desde muito jovem, estava conectada a processos criativos, artísticos. Quando morei por um tempo em Maceió, eu conheci um professor de artes, o Bananola, tio Beto Bananola, que era de Salvador e tinha uma trupe. E quando ele foi para Maceió como professor, a gente criou um grupo de teatro na escola. Quando retornei para Aracaju, fiquei um tempo meio ‘perdidona’, não sabia como acessar aqui, as oficinas e escolas,E depois de um tempo, fui descobrindo e aí entrei de cabeça.

Como você define os seus dias de isolamento?

Os dias de isolamento tem sido bem complexos. Eu entrei na pandemia antes de todo mundo porque fiz uma cirurgia, no dia 5 de março e já teria que ficar quinze dias em casa. Logo em seguida, veio a pandemia, e eu já estava em quarentena. Então foi tudo bem complexo mesmo, eu quase despiroco real. E ainda tenho o privilégio de ter uma casa, de não ter precisado ir trabalhar na rua, mas emocionalmente foi bem difícil. E ao mesmo tempo vem aflição: “Meu Deus, será que vou conseguir sobreviver?”, “e os trabalhos?”. Meio que tudo aflora, todos os setores: familiar, profissional, todos ficam abalados. A gente tem que ter essa percepção política do mundo, do Brasil, de como está nosso país, tudo afeta bastante. Mas a arte mais uma vez ainda está num lugar que me mantém nessa conexão com a vida. A arte como cura foi e está sendo bem fundamental nesse processo. De forma bem simplista, posso dizer que a arte me salvou e me salva até hoje o tempo inteiro. Entrei num processo de criação muito intenso, dias e dias, com Alex ( Sant’Anna), que é um parceiro não só de vida, mas de criação também. Nós compactuamos com muitos processos de criação aqui dentro de casa, e isso é muito, muito, muito bom. A gente tem a alegria de nos criarmos juntos, de escutar um do outro e é muito bom isso. Nesse processo de criação nasceu a Versa Grupa, que é uma grupa de mulheres, começamos eu, Giuliana [está em São Paulo , mas já foi do Caixa Cênica], uma parceira de anos. Aí nasceu a Grupa, gravei Ep, enfim muitas coisas artísticas.

A Banda dos Corações Partidos lançou um single em setembro, “Faz Casa”, que fala dessa relação com a casa, o espaço. Teve alguma conexão com esse período de isolamento ou foi apenas coincidência?

A música “Faz Casa” já está há alguns anos no repertório da ‘Corações’, e mas a gente nunca tinha gravado. Ela entrava de forma intuitiva dentro do repertório. Quando a gente tinha a possibilidade de fazer um show maior, de ter mais tempo de desenvolver uma narrativa, aí a gente inseria ela. Mas no isolamento, nesse processo de intuições e processos criativos, eu estava um dia aqui bem angustiada, tentando respirar, comecei a cantarolar e pensei: “Faz Casa tem tudo a ver agora gente!”. Joguei para a banda e todo mundo super achou que era o momento de gravar.

Como era a cena cultural em Aracaju quando você começou? O que melhorou e o que piorou na sua visão?

Quando eu comecei a fazer teatro em Aracaju, nossa! Bem complexo… Na verdade, tinha poucos grupos respirando, alguns artistas, um processo muito individual. Políticas públicas inexistentes, não lembro nem de ter Secretaria de Cultura, nem de estado e nem de município. Um hiato muito grande desses processos políticos. Era um esforço individual de artistas e grupos. Eu acho que peguei o finalzinho do Mambembe, da Virgínia Lucia. Tinha o Imbuaça né, sempre. Alguns artistas que estava conhecendo como Raimundo Venâncio, o Técio, o Tassio da Perna de Pau, que tem o seu grupo até hoje. Olga Gutierrez. E naquele momento surgiu esse grupo de artistas mais jovens, que é da minha geração, que vem dar esse respiro de novo. Surge a “Cia Deu Branco”, que nasce de uma oficina semi-profissionalizante do SESC, e dele, algumas pessoas saem, eu entre elas e fundamos a ‘Kumpanya dos Duendes’, com a montagem espetáculo ‘Bodas de Sangue’, com direção do Sidnei Cruz. Foi ali que eu o conheci. E dessa Companhia surge o Caixa Cênica, e que fica algum tempo tentando essa sobrevivência. Foi uma loucura esse período, até surgir de novo outra geração com fôlego maior. Surgem outros grupos que dão esse respiro, mas era bem complexo! Era tudo feito muito intuitivamente né, não tinha ainda o curso na universidade, não tinha curso profissionalizante. O que tinha eram oficinas esporádicas, tive muito que sair do estado, eram uns processos muito loucos, porque não tinha verba, estrutura zero. Vou dizer que melhorou muito? Não vou dizer não, mas a própria resistência dos grupos, dos que foram surgindo, acabam dando um respiro para outros artistas continuarem e terem força de seguir seus processos, mas é bem difícil.

Você disse que a’ Corações Partidos’ surgiu depois de uma oficina de teatro. Como foi isso?

Com meu relacionamento com Alex, a música entra muito forte na minha vida e nos meus processos criativos, então eu já estava flertando ali, mas de uma forma bem espontânea. E fiz uma oficina de melodrama e palhaçaria com a Ana Luiza, que era do Maria das Graças, é um grupo de palhaçaria feminino bem bacana. Não sei se existe ainda. Na época ela já não fazia mais parte, mas é uma palhaça muito bacana e tem um processo muito interessante dentro do feminino. Nessa oficina trabalhamos muito com músicas melodramáticas, Lupicínio Rodrigues, Maysa. E aí eu fiquei louca e deu um estalo na minha cabeça “é isso!” Eu já tava flertando com a música, mas ainda buscava alguma coisa que realmente tivesse a ver comigo, com meu processo. Porque eu não tenho formação em música. Todos os meus processos com relação à voz vêm do teatro. E depois desse processo tem meu relacionamento com Alex, e aí a ideia do projeto veio muito forte pra mim, falei “nossa é esse lugar”. A gente foi chamando os boy pra entrar na banda, os boys já eram próximos e super curtiram a ideia, de criar essa linguagem, dessa força, e da vontade fazer e fez.

Em outubro você participou de uma peça virtual [“Onde você estava quando eu acordei? – Um Atentado Virtual”]. Conta um pouco dessa experiência.?

Esse espetáculo foi escrito há 15 anos para um processo meu dentro do grupo que tava nesse momento, que era eu, Fábio Rodriguez e Leandro Godim. O Leandro Godinho tinha ido para São Paulo e aí entra a Giuliana Maria. A gente tinha uma dificuldade de ter acesso a textos dramatúrgicos. Na verdade, até hoje. E eu buscando alguma coisa, buscava, buscava e não encontrava nada próximo do que eu queria na época, do que eu queria trazer para cena, de discurso e narrativa. E aí eu falei para o Sidney o que eu estava procurando. Eu ainda não tinha (leitura), eu flertava com o feminismo, mas era de uma forma muito orgânica, não tinha acesso a muitas literaturas, textos teóricos, não era fácil. E aí a gente começa a ter esse diálogo, ele tem um sonho e desse sonho ele começa a fazer uma pesquisa a partir do ‘Scum Manifesto’, da Valerie Solanas, um manifesto de feminismo radical que prevê a aniquilação dos machos na Terra. É um deboche, né. Valerie escreve um grande deboche radical sobre o extermínio do homem na fase da Terra. E o texto (da peça) é escrito em cima desse escrito da Valerie. E aí eu e Giu, porque são duas personagens, a Vera e a Sara, tentamos montar na época e queríamos trazer o Sidney para dirigir, só que a gente não tinha verba, recursos zero! Na época acho que já existia a Funcaju e aí tentamos alguma verba ou estrutura mínima, mas não conseguimos. Conseguimos fazer cinco banquetes, o banquete que é uma parte do nosso método de trabalho. É um processo que abre ao público uma parte do método criativo dos trabalhos do grupo, e oferece a plateia o alimento para alma e o alimento para o corpo, como também a bebida que é uma saudação a Dionísio. As pessoas vão lá comer, beber e se aproveitar da entrega desse processo e rola essa troca com o público, que é incrível. Fizemos essas cinco, mas não montamos o espetáculo. A Giu também vai para São Paulo tentar EaD e eu fico aqui em Aracaju. A gente continuou flertando uma com a outra, mas tinha essa distância. E antes da pandemia a gente já tinha começado a se encontrar porque queria fazer algo, estamos fazendo pesquisas juntas. E aí me veio o texto à memória e falei para Giu: “Vamos dar uma lida?”. Quando a gente começa a ler, percebe que ele tem tudo a ver com esse momento que estamos vivendo hoje. A gente percebe que talvez precisasse desse tempo, que as personagens precisassem desse tempo, do nosso tempo real.

“Para Leopoldina” foi seu primeiro trabalho na direção de um curta-metragem. Tem novos projetos como diretora?

Eu já tinha o argumento há muitos anos e também partiu de uma história pessoal. Então, veio o primeiro edital para audiovisual pela Secult, mas não passamos. Depois, re-elaboramos ele, conseguimos passar no segundo edital e realizar. Eu não sou uma diretora de cinema, mas o projeto estava tão dentro de mim, era tão meu que não tinha como eu não dirigir. Mas eu só dirigi porque tinha a Moema [Pascoini], que é uma grande diretora de fotografia e ela topou essa empreitada de criar esse diálogo. Foi extremamente legal porque fomos muito parceiras em cena, nesse processo a gente fluiu bastante bem porque nós tínhamos ideias bempróximas e foi imensamente respeitoso. Para esse projeto, a gente escolheu ter muitas mulheres trabalhando, tivemos a maravilhosa Everlane Moraes fazendo a direção de arte, a gente teve a Carol Mendonça fazendo assistência, Manu Veloso, Nah (Donato) nossa produção maravilhosa, então tivemos muitas mulheres em cena. Eu fiquei na co-direção com a maravilhosa Moema e a Valmir Sandes, com quem, eu queria muito trabalhar. e E foi esse projeto que pude realizar o sonho de estarmos juntas em cena. Não tem outro projeto de direção, mas tem outro no qual estou completamente envolvida. E estamos bem ansiosos para realizar esse filme, ele é bem necessário para o momento no qual estamos vivendo.

Nos shows da Corações Partidos é possível notar um forte teor político, com críticas ao atual governo,pautas do feminismo. O amor e a política caminham juntos?

Quando comecei a fazer teatro, eu tinha um lugar de concepção de arte bastante forte, mesmo sendo jovem. Era um motivador de eu ser artista, que é o lugar da arte em fazer o processo político. Não político partidário, óbvio. Mas de fazer política, de ser, de ocupar um lugar crítico, um lugar de conflito. Arte é conflito, para mim não faz sentido estar num lugar de conforto, a arte é desconforto. Claro que ela tem os momentos, mas que ainda sim são escolhas dentro de um processo também crítico, de vida, de diálogo com a sociedade. Para mim, a arte está nesse lugar de transformação, de mutação. A Corações surge em um lugar e vai se transformando, dialogando com a sociedade, com o processo de encaminhamentos sociais. Dos nossos diálogos enquanto artistas e seres sociais. Então você percebe que, no começo da Corações a gente vinha num processo muito acanhado nesse sentido e de acordo com os nossos processos enquanto indivíduos, indivíduas e indivídues, a gente entra nesse fluxo de diálogo e percepções que nós estamos fazendo arte e que a arte está neste lugar sim, de interferir. Arte é política e não tem como não ser, se você pegar o sentido de política que é escolha, que é o processo de atuação. Atuar está como atuador sobre sua vida agindo sobre sua vida, você é uma pessoa que atua na vida, então você não espera. Nesse sentido de não esperar, de dialogar, arte é politica, diálogo, conflito, crítica, lugar de diálogo com o outro, de percepção do outro, de você enquanto outro Eu. Fui bem confusa né, gente? Impressionante como eu sou confusa (risos), mas deu para entender né?

Como você tem observado a aplicação da Lei Aldir Blanc aqui no estado?

Eu sou uma pessoa esperançosa, mesmo sabendo de todo o nosso processo político cultural, de como ele se formata há muitos anos, que carrega em sua estrutura toda uma formação coronelista, colonial. Mesmo assim, eu ainda tinha esperança sobre a construção de políticas públicas para o Estado. A gente sabe que, com políticas públicas efetivas, a gente consegue ter verbas muito importantes para o fomento das culturas locais, mas a gente nunca teve isso. Nesse momento, eu tinha esperança por ter essa verba, uma verba bacana e que poderia conduzir para um processo de construção de política pública efetiva para o estado, porém não existiu diálogo. A gente tentou, foi atrás, estudou, preparou para essa construção, mas não somos recebidos da forma que deveríamos ser. Não existe construção de política pública se a artista, aquela que está fazendo, não é consultada, não é acolhida. Infelizmente eu vejo assim: muitos artistas vão poder realizar suas obras, mas se não partir de uma vontade individual de tentar ir além desses processos de edital, de só pagar contas, e que nem vai dar pra pagar as contas, quem está fazendo sabe que não vai conseguir. Uma artista só não vai conduzir o processo de uma coletividade. Infelizmente, a ideia era essa, muitos artistas se mobilizaram para isso. Me sinto triste em dizer isso e em saber que foi tentado com muita força para esse diálogo, mas nós não fomos ouvidos. Mais uma vez.

Para finalizar, quais são os seus desejos e planos para 2021?

Gente, meu primeiro desejo é vacina! Vacina para o coronga, que chegue realmente a todos, todas e todes. Eu desejo que a gente se prepare para as transformações necessárias. Não dá mais para viver no mundo como ele está. Essa estrutura neoliberal, fascista, racista, não dá mais. É intolerável! E a gente precisa ter forças e se responsabilizar para essa transformação. Que a branquitude, eu me incluo porque sou uma mulher branca, a gente precisa se mobilizar. Porque não tem como mais. Tantas pessoas morrendo e a gente sabe quem está morrendo, estamos num momento bem difícil, mas sabemos que uma parcela grande da sociedade está morrendo. A gente está falando de vida e morte, eu não vou nem entrar em outras questões do próprio processo da vida. Mas o mundo do jeito que está, não está. Então, eu desejo que a gente se prepare, que a gente tenha força para essa transformação e assuma as responsabilidades. É isso que eu desejo para 2021. Amor é tudo isso também. Amor para mim é estar neste lugar e querer isso, ir atrás disso. Eu sou muito maluca respondendo né?

Escute abaixo as músicas da Banda do Coração Partido: