Entrevista com Alex Sant’anna – “O mundo não é feliz e essa tristeza me faz escrever”

Foto: @prittyreisfotografia

Volte e pegue” esse é o significado do Sankofa, o ideograma de um pássaro de pescoço longo olhando para trás que integra o sistema de escrita Adinkra do povo Akan, da África Central. Por conta do resgate desse símbolo, um olhar para a ancestralidade se tornou um dos principais elementos do Afrofuturismo, movimento artístico-cultural que busca incluir as pessoas negras na perspectiva do futuro. Voltar ao passado para ressignificar o presente e construir o futuro. E foi com o objetivo de (re) conhecer este passado que Alex Sant’anna foi pesquisar as origens da música negra pelo mundo. Nesse processo, foi descobrindo suas semelhanças e suas diferenças. E do desejo de se comunicar com os tambores ancestrais nasce Baião Amargo, seu terceiro álbum solo, lançado este ano. Mas não se engane pelo título. O baião é apenas a síntese dessa busca. Ritmos negros caribenhos e africanos também estão presentes, tudo isso conectado com elementos pop que Alex já trazia de seus trabalhos anteriores. Conversamos com Alex para saber mais sobre essas sua pesquisa a música negra, suas influências e também sobre como é trabalhar em quarentena. Passado, presente e futuro. 

Como foi seu contato com o afrofuturismo e quando decidiu trazer essa estética para seu trabalho?

Quando eu comecei a pensar no Baião Amargo eu queria fazer um disco mais preto. E aí comecei a pesquisar sobre música negra feita aqui nas Américas, para entender essas presenças da música negra africana, e entre os vários temas que eu comecei a pesquisar eu encontrei foi o afrofuturismo, foi um assunto assim que fez meus olhos brilharem. Eu comecei a assistir algumas palestras, comprei livros, e autores considerados afro-futuristas, busquei playlists, e claro acho que meu disco tem alguns elementos de afrofuturismo, mas não acho que a estética afrofuturista seja o elemento principal do disco e nem meu disco seja afrofuturista. O afrofuturismo tem algumas narrativas de ficção, talvez a mais próxima seja “ Por um clique”, que fala de tecnologia, que ano passado era de um futuro distópico, agora é de uma realidade. Tem em comum o protagonismo negro, a ancestralidade, apesar que não falo muito sobre ancestralidade, apenas na música “Esquecimento”. Então foi uma estética que me influenciou nos climas espaciais do disco, em arranjos, não posso dizer que meu disco é afrofuturista, mas é uma estética que tem me interessado muito, quem sabe o próximo isso venha mais à tona.

Hoje a gente não fala mais “vou entrar na internet” ela praticamente está todos os lugares, a música “Por um clique” traz essa relação entre solidão e conectividades. Ainda é possível ficar só e desplugado?

Essa música me faz descobrir coisas que nem tinha pensado, é bom pensar sobre ela porque ela levanta várias questões. Acho que é necessário ficar só e desplugado em alguns momentos, apesar de que nem sempre eu consigo. Às vezes eu tomo um susto quando o celular me dá o relatório de quanto tempo eu fiquei no celular por dia. E aí eu penso que poderia ter feito muitas outras coisas. A gente tem que começar a correr mesmo para desplugar, sair mesmo, desconectar. Porque esse vício pode ser doloroso, essa dependência desse retângulo que fica em nossas mãos, pode prender mesmo, prende a gente. Se desconectar, dia a dia , um passo de cada vez, tentar passar menos tempo na tela retangular do celular para tentar ver outras coisas. Quando eu falo na letra que “a paisagem da janela ainda é mais triste”, tô fazendo o trocadilho com o Windows. Até em casa a paisagem que a gente fica vendo é do papel parede do Windows! Então a gente perdeu a capacidade de contemplar, de olhar o céu, o horizonte. Tá assistindo a TV , deu comercial aí pega o celular. Acho que tá faltando esse tempo para refletir, se desplugar é importante.

Dizem que você é uma pessoa alegre de “músicas tristes”. Da onde vem a introspecção das suas letras?

A última música do meu disco ( À Mostra) eu escrevi pensando nisso aí, de onde vem a introspecção das minhas letras já que sou uma pessoa feliz. E eu sempre pensava que tava falando da tristeza e das dores das outras pessoas. Se você pegar o release dos discos anteriores, do “Enquanto Espera” principalmente, vai ver que tô falando sobre as dores alheias, mas de alguma maneira essas dores são minhas também, por isso que eu escrevi. Por isso eu fecho o Baião Amargo com isso: “por mais que tente me esconder eu me mostro, com máscara e disfarces seja distorcendo o foco”. Nessa música eu falo disso. Eu posso dizer que sou uma pessoa feliz, pelo menos boa parte do meu tempo eu estou feliz. Porém o mundo não é feliz e essa tristeza do mundo me abala, essas coisas me tocam e me fazem escrever. Eu tô escrevendo e às vezes nem sei o que tô escrevendo e quando eu vejo parece que o universo estivesse guiando para falar algumas coisas e mesmo falando do mundo eu tô falando das minhas dores também.

O álbum saiu no período de quarentena, restrições de aglomeração. Em algum momento pensou em adiar o lançamento por conta disso?

Eu pensei várias vezes em não lançar esse disco, tinha uma dúvida que ficava na minha cabeça, que é uma dúvida que eu tenho até hoje: quando isso vai passar? E quando passar, quando a gente vai poder fazer show de novo? Então eu não sei se vou conseguir fazer turnê de divulgação do disco, não sei até agora. Conversei com várias pessoas e todas diziam “se tá pronto, lança”. E conversando com essas pessoas próximas, eu botei no mundo. Como tive um trabalho danado pra fazer um disco sem prazo de validade, eu boto fé que ele ainda vai me levar para muitos lugares depois.

Você participou de duas músicas que foram produzidas coletivamente nesse período de isolamento. Acredita que vem conseguindo ressignificar seu modo de trabalho?

Na verdade eu participei de mais músicas, tem uma música do Jean Mafra, que é de Santa Catarina que eu cantei com ele. Já compus algumas músicas. Esse período de isolamento está me trazendo algumas coisas interessantes artisticamente. Algumas pessoas que já estavam longe, morando em outras cidades, mas que a gente começou a ficar mais próximo como se fosse vizinho (não do meu condomínio, que ninguém tá isolado não). Mas a mesma distância minha pra você é a distância que tenho de uma pessoa que tá em Santa Catarina, e a gente começou a se conectar pra fazer esses trabalhos. Acho que é uma força que a gente faz pra tentar manter a nossa sanidade. Com Leo ( Leo Airplane) que produziu o disco eu já tô produzindo músicas novas, vou lançar em breve uma música nova que eu fiz com Diane (Veloso), que inclusive soltei numa live que eu fiz no instagram. E tem uma outra canção que fiz com outro parceiro que Leo e eu estamos trabalhando. Via Zoom! ele bota a tela do Logic ai faz um streaming do áudio, e manda para o meu celular. Eu recebo quase em tempo real e aí gente vai produzindo junto, eu dou opinião e ele vai lá e grava, manda pra mim eu gravo. É um processo muito interessante mesmo. A gente tem que procurar essas alternativas.

Você tem acompanhado as discussões em torno da lei emergencial de cultura Aldir Blanc? Acredita que os gestores públicos estão preparados para fazer com o que o dinheiro chegue a quem deve chegar?

Não acredito que eles estejam preparados para que o dinheiro chegue na ponta, em quem precisa. Eles nunca estiveram. Não acredito que agora eles estejam, mas talvez agora por ser obrigado que esse dinheiro chegue vamo ver como eles vão fazer. Agora tá todo mundo interessado, tem mais gente querendo criar coletivos, criar grupos para tentar dar ideias para ver como esse dinheiro vai chegar nas pessoas. Acho que isso dá uma esperança, tem mais gente interessada em botar ordem no negócio, mas depender dos gestores não. Não quer dizer que eles não queiram, mas pelo que foi feito até aqui não dá pra ter essa esperança, mas sempre pode mudar.

O que tem feito sua cabeça nessa quarentena?

Tá falando de droga não né? (risos). Eu tenho ouvido muita música, cada dia eu conheço um artista novo, novo pra mim, eu fico muito feliz. É como se eu ganhasse o dia, porque conheço uma música e busco o álbum, então é muito feliz pra mim. Tem um cara de Pernambuco que já conheço o trabalho dele há muito tempo, mas o trabalho novo dele é muito massa que é o Zé Manoel, sou muito fã dele. Tem o Benjamin Clementine. O Mateus Aleluia que lançou um disco muito legal, mas eu sempre volto pra ouvir outras coisas que a gente sempre ouve. O último disco do Maurício Pereira eu gosto muito também. Teve dois caras que eu vi num programa, tô ouvindo essa semana, ainda tô degustando, é o Gregory Porter e Son Little, porra muito foda mesmo. E  Michael Kiwanuka  que descobri ano passado. Daqui de Sergipe também tô sempre ouvindo as produções novas, e essas coisas acabam me influenciando de alguma maneira. Não foram como influências para o Baião Amargo, mas eu tenho ouvido com o tempo.

O gênero baião já foi o norteador do seu trabalho com a Naurêa. Ter a música nordestina como guia é fundamental pra você?

O baião dentro do que a gente entende por forró, é um dos ritmos que eu mais ouço, mais gosto. Eu na verdade gosto de todos, mas eu acabo ouvindo mais baião, que também foi importante pra formação da Naurêa sim. A gente dizia que nosso som era sambaião na época, tinha os elementos e etc. Mais o Baião não veio para meu trabalho solo por conta da Naurêa. Como eu comecei a pesquisar sobre música negra, comecei lá com a música negra norte americana, e descobri que tambores foram proibidos na época da escravidão de lá porque os brancos achavam que os negros se comunicavam através dos tambores. Aí eu pensei: “eu vou me comunicar por tambor”. Achei essa história foda e ai resolvi trazer o tambores para o disco. Queria música negra, mas que tivesse tambor. Aí fui descendo para música negra caribenha, latino-americana, aí cheguei no Brasil, no samba, até que cheguei na música negra com tambor que eu tenho maior identificação que é o baião, meu norte. E como minhas letras são mais amargas, virou Baião Amargo.

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