A incrível história da banda Ave Sangria

Ave Sangria é um grupo que floresceu nos anos 70 na cena musical psicodélica pernambucana. Inicialmente chamada de Tamarineira Village, em homenagem ao bairro em que moravam no Recife e a um hospício da região com mesmo nome, mudaram o nome por questão de ter um nome mais comercial e de fácil absorção.

O nome Ave Sangria veio por ideia de Marco Polo, que imaginou uma ave de sangue sobrevoando a cidade e também por remeter a Ave Maria como maneira de provocação.

Certa vez em entrevista com os integrantes da banda Marco Polo inventou que a banda teria mudado de nome graças a um encontro com uma cigana pelos interiores pernambucanos que disse que os garotos eram uma Ave Sangria.

Eles usavam batom, se beijavam na boca em pleno espetáculo e faziam uma música “escandalosa” sobre moças mortas no cio, piratas e viagens de ácido, a banda Ave Sangria ficou conhecida na época como os Rolling Stones brasileiros.

Banda Ave Sangria
Ave Sangria

Ave Sangria na época de seu auge era formada por Marco Polo nos vocais, Ivson Wanderley na guitarra solo e violão, Amir de Oliveira no baixo, Paulo Raphael na guitarra base e sintetizadores,Israel Semente na bateria e Agrício Noya na percução.

Na época o som da banda era uma das sensações da MPB e várias gravadoras já estavam de olho no quinteto. A primeira gravadora a dar uma proposta por garotos foi a RCA, mas eles recusaram.

O primeiro disco da Ave Sangria veio por indicação dos empresários dos Novos Baianos, que apresentaram a banda a gravadora Continental. Logo após os integrantes foram para o estúdio Hawai, na avenida Brasil, no Rio de Janeiro. Com exceção de Marco Polo, nenhum dos integrantes da banda tinham pisado no Rio de Janeiro, muito menos em um estúdio de gravação.

Por azar da banda, quem produziu o disco foi Marcio Antonucci, que era novato e não tinha quase nenhuma experiência com produção ainda, os integrantes afirmam que o produtor ficou perdido com o som que tinha em mãos, pois ele não entendia em nada a mistura de rock e música nordestina que eles faziam, isso misturado com a inexperiência do grupo em estúdios, fez com que o disco soasse como o timbre acústico, bem diferente do que a banda estava propondo fazer.

Ave Sangria
Ave Sangria

Além disso a gravadora não se propôs a pagar a arte do disco, feita por Lailson de Holanda Cavalcanti e no seu lugar colocou uma cópia mal feita da arte original. A banda intitula a nova capa como um “papagaio Drag Queen”.

O disco, mesmo sem muito apoio da gravadora e sem ser muito divulgado acabou tendo um relativo sucesso na região sudeste e vendeu bastante nos estados nordestinos. Lançado em 1974, o disco ficou apenas 1 mês e meio nas prateleiras.

A música que fez mais sucesso e polêmica na época foi seu Waldir, que foi considerado pelos conservadores pernambucanos como uma apologia a homossexualidade. Muitas histórias foram contadas sobre essa música, acreditava-se que Seu Waldir era uma pessoa de carne e osso, mas em entrevista revela que ele tinha feito a música antes de entrar na banda, ela foi encomendada por Marília Pera para a trilha da peça de teatro A Vida Escrachada de Baby Stomponato, de Bráulio Pedroso, que acabou não utilizando a música.

A censura da banda Ave Sangria

O Departamento de Censura da Polícia Federal não acreditou na versão de Marco Polo e censurou o LP, em seguida eles determinaram o recolhimento em todo território nacional. Segundo os integrantes, a censura veio incitada pelo colunista do Diário de Pernambuco, João Alberto, depois de tocar a música em seu programa e dizer que achava um absurdo uma música com uma letra daquela tocar livremente nas rádios.

Algumas histórias da época conta que a proibição do disco veio incentivado por um general na época que se chamava Waldir e não gostou nada da letra dos rapazes.

Antes da proibição o disco chegou a vender 15 mil cópias rapidamente, mas após a proibição da música, o disco foi relançado alguns meses sem a música Seu Waldir, mas a mídia já não estava mais tão interessada e a banda perdeu o pique.

A Ave Sangria ainda fez alguns shows depois do ocorrido, mas infelizmente o auge já tinha passado e o dinheiro não estava dando mais pra viver da banda. O tiro de misericórdia da Ave Sangria veio de Alceu Valença, por incrível que pareça. O músico que estava no auge do sucesso resolveu contratar os músicos para formarem sua banda de apoio, fazendo assim a banda acabar literalmente.

Os músicos da Ave Sangria estiveram presentes nos três melhores discos da carreira de Alceu Valença, Molhado de Suor (1974), Vivo! (1976) e Espelho Cristalino (1976), inclusive o guitarrista Paulo Raphael toca com Alceu até os dias atuais.

Para saber um pouco mais sobre a Ave Sangria, assista o documentário oficial da banda.

Dudu Guerreiro

Sou fundador da Chá de Fita, amante da cultura brasileira, fotógrafo, produtor de eventos e ilustrador nas horas vagas.

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