Elza Soares – A mulher do fim do mundo

Elza Soares é um dos mais conhecidos nomes femininos da música popular brasileira, além disso, não é de hoje que ela é símbolo contra o preconceito, seja racial ou sexual.

Elza, que pode facilmente ser chamada pelo título do seu último álbum, Elza Soares – A mulher do fim do mundo, não é conhecida apenas em território nacional. Sua voz potente marca por onde passa, e desde que deixou Ary Barroso boquiaberto, quando tinha apenas 13 anos no programa de calouro da Rádio Tupi, o mundo inteiro ganhou a oportunidade de se deliciar ao som de Elza.

Ary Barroso era conhecido pelo seu estilo brincalhão e por tirar uma certa onda com os participantes de seu programa. Quando a cantora apareceu em seu palco, o apresentador arrancou risos da plateia por caçoar a roupa que ela usava, entretanto, os sons das gargalhadas sumiram quando a menina respondeu à seguinte questão: De que planeta você veio?

Ary Barroso

“Eu estou vindo do planeta fome, do mesmo planeta seu”. Antes mesmo de Ary se recompor, a cantora anunciou que cantaria “Lama”, mudando completamente a feição da plateia e do próprio apresentador que anunciou ao fim da apresentação: “Senhoras e Senhores, neste exato momento acaba de nascer uma estrela”. Mal sabíamos que essa estrela seria hoje Elza Soares – a mulher do fim do mundo, não é mesmo?

Infelizmente, Barroso estava enganado ao afirmar que naquele dia uma nova estrela nascia. Isso porque toda a família da cantora foi contra sua carreira no mundo das artes, mesmo sabendo que essa profissão poderia mudar a situação de pobreza em que viviam.

Elza nasceu na favela carioca Vila Vintém, no dia 23 de junho de 1930. Com apenas 12 anos, foi obrigada a se casar, e aos 13 já era mãe. A sua apresentação na Rádio Tupi aconteceu às escondidas, o seu objetivo na época era ganhar dinheiro para os cuidados do filho doente, que faleceu pouco tempo depois.

Com apenas 21 anos, Elza Soares já havia velado o primeiro marido e dois filhos. Durante essa fase, sua vida foi realmente desesperadora, pois a cantora tinha cinco crianças para cuidar e não trabalhava fora de casa. Porém, foi no meio de toda essa tristeza que a sua luz no fim do túnel surgiu: agora viúva, Elza pode se aventurar no ramo artístico.

Como sabemos, essa jornada deu muito certo. Sua voz puxando para a rouquidão a transformou em uma artista única nacionalmente. Sua representação é tão clara que a BBC de Londres a nomeou como a cantora do milênio, nos anos 2000.

Além da voz, Elza também ficou conhecida pelo seu romance com o jogador Garrincha. Em 1960 eles deram início ao romance, e, devido o contexto dessa trajetória, não é difícil imaginar o quão julgada ela foi na época. Garrincha ainda era casado e a moça estava no início de sua carreira, lançando o seu primeiro álbum “A Bossa Negra”.

Elza Soares e Garrincha

Apesar de tudo isso, o casal assumiu a relação por mais de 15 anos e juntos eles têm um filho. O fim do relacionamento representou outro drama na vida da cantora: Com o tempo, Garrincha passou a apresentar comportamentos alcoólatras e violentos, bateu na esposa diversas vezes, chegando ao ponto de quebrar os seus dentes. Nesse tempo, Elza sofria em silêncio.

Foi só em 2015, depois de ter lançado 5 álbuns, que ela conseguiu colocar para fora toda a dor de mais uma vítima da violência doméstica. Entre todas as incríveis músicas de “Mulher do Fim do Mundo”, apareceu “Maria da Vila Matilde”, onde ela deixou claro com a sua voz única: “Eu vou ligar para o 180, vou entregar teu nome e explicar meu endereço”.

Logo após o seu lançamento, a música se tornou uma espécie de hino no movimento feminista, e em todas as vezes que esse som é interpretado em programas de televisão ou em shows, Elza faz questão de lembrar às vítimas da violência doméstica a importância da denúncia para o 180, o número da Central de Atendimento à Mulher.

Pelo Brasil, muitas mulheres agradecem por Elza Soares – A mulher do fim do mundo.
Texto alternativo para a imagem.

O álbum da vida de Elza Soares – A mulher do fim do mundo

Toda a trajetória da cantora, reconhecida pelos seus recomeços é celebrada nesse trabalho. Em praticamente 60 anos de carreira, Elza Soares – A mulher do fim do mundo é o único álbum de inéditas assinado pela artista.

O trabalho foi idealizado pelo produtor Guilherme Kastrup e por membros do grupo Bixiga 70. Elza Soares – A mulher do fim do mundo, é marcado por trazer uma Elza ainda mais forte, o que faz jus ao seu pedido “me deixem cantar até o fim”, presente na faixa de abertura.

A artista costuma dizer em suas entrevistas que a mulher do fim do mundo é aquela que reivindica e grita pelos seus direitos e, sem dúvidas alguma, ela é essa mulher. Ao ouvir todo o álbum Elza Soares – A mulher do fim do mundo, é perceptível que esse é também um manifesto autobiográfico.

É uma história que marca a trajetória de uma mulher de 87 anos que conhece diversas versões de uma vida, que já foi abusada, julgada e apontada. Que encarou não só a pobreza, a fome e um casamento quando criança, mas também o exílio da ditadura militar e a morte de quatro entre sete filhos.

Hoje ela sofre com problemas de coluna, mas mesmo quando se apresenta em companhia de uma cadeira de rodas, não abre mão do seu salto 15 e do seu poder com o canto e palavras. Então Elza, não é preciso nem pedir que te deixem cantar até o fim, pois aqui o seu desejo é uma ordem.

 

Gente, se vocês gostaram de nossa breve história sobre essa mulher maravilhosa não esqueça de conferir a camiseta em homenagem a ela em nosso site clicando na imagem abaixo. <3

camiseta-elza-soares

Blogueiro e desenhista.

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